Nossa experiência com Aikido no Japão

by Segmento Dojo on 05 nov | 0

As práticas de aikido no Japão foram experiências encantadoras e inesquecíveis.

Fizemos dois treinos com o Doshu no Honbu Dojo no horário das 6:30 da manhã. Como era de se esperar, a maioria dos alunos eram estrangeiros, não deu para se ter certeza dos tantos que lá estavam, quantos estavam de passagem como nós e quantos ficariam um mês, dois meses ou mais, continuamente aprendendo diretamente com o Doshu, o que, tenho certeza, seria uma experiência ainda mais única que a nossa. Faltando 10 mintuos para a entrada do Doshu na sala, o som das vozes dos alunos no tatami, que já era quase inaudível, ia diminuindo cada vez mais, o silêncio começa a reinar e os alunos começam a tomar seus lugares, devidamente sentados em seizá. Uma hora de treino passou muito rápido. Treinamos umas 5 técnicas diferentes e todas bem simples, mas complicadas caso você seja um faixa branca ou um praticante menos experiente. Portanto, ter algum conhecimento da arte é importante antes de se decidir por participar dos treinos com o Doshu. Ele demonstra apenas dois omotes e dois ura de cada técnica. Logo estende a mão a um aluno e começa a demonstrar a técnica seguinte. É tudo muito rápido, sem conversa, sem muito tempo pra observar, sem tempo a perder. Foi muito bom! Os quinze minutos finais são o que chamam de “free training”, ou seja, os pares começam a refazer na mesma ordem todas as técnicas que foram demonstradas pelo Doshu nos últimos 45 minutos. A aula acaba, todos voltam a sentarem-se naquela confusão organizada, fazemos as devidas reverências e o doshu retira-se do recinto. Só então no levantamos e vamos correr pegar na vassoura os nos panos para realizar a limpeza do tatami.

Nossa próxima experiência foi no Dojo do Kobayashi Sensei. Também tivemos a oportunidade de participarmos de dois treinos, um em cada um de seus dois Dojos: primeiramente em Tokorozawa e depois de Kodaira. Quer um quanto o outro são Dojos bem pequenos, visto a importância do aikido do Kobaiashi pelo mundo. Seu Dojo é frequentado por muitos alunos estrangeiros, e está sempre lotado.Em nossa experiência, tivemos a oportunidade de conhecermos uns cinco ou seis amigos Turcos e Búlgaros que lá estavam vivendo como wuchideshi. Um deles falava japonês fluente e já vivia no Japão há mais de 8 anos, mas estava como wuchideshi há pelo menos 1. Os outros foram para ficar como wuchideshi por um mês apenas. A rotina deles era muito pesada e, portanto, se passar pela sua cabeça assim o fizer, pense bem, pois não terá muito tempo livre para passear ou fazer outras atividades que não sejam participar dos treinos, lavar roupa, cozinhar, lavar banheiros e limpar os Dojos. Os treinos da manhã começam as 6:30 e o último treino na noite começa as 19:30. Sendo assim, não era pouco incomum gastarem horas e horas de trem indo e vindo de um Dojo para o outro para conseguirem cumprir com a regra de ter que participar de todos os treinos principais. Lembrando sempre que depois dos treinos, kobaiashi gosta de se sentar com seus alunos para conversarem, tomar chá ou as vezes saquê ou alguma comida gostosa, tipo sushi, enquanto conversamos e confraternizamos. Característica muito simpática e receptiva dele, mas isto só depois que todos já se prontificaram a limpar o tatami. O próprio Kobaiashi Sensei é uma pessoa muito divertida e alegre, ele repete as técnicas várias vezes e as explica se for necessário. Se preocupa com todos os seus alunos e tem uma postura muito receptiva para com todos eles. Tenta realizar a técnica com cada um, independente dele ser faixa branca ou preta, e deixa que façamos a técnica nele também. A aula transcorre divertidamente, mas sem tempo para parar e bater papo e nem para ficar a toa. Ele faz técnicas simples e algumas mais complicadas, tipo com dois ukes. Mas o faz de uma forma tão simples e clara, que mesmo a técnica mais complicada acaba parecendo simples e fácil de aprender. No final da aula ele pede para todos pegarem os bastões e deixa-nos treinando o kata de 13 e 31 movimentos, ao que parece bem familiar a todos. Isto nos 15 minutos finais. A aula acaba e, novamente, todos saímos a procura dos paninhos e vassouras para tirarmos o pó do tatami. Depois de tudo pronto é momento de descontração com o Sensei Kobaiashi. Tudo muito bom! Apesar de não parecer, acho que aprendemos um pouquinho de aikido ou pelo menos vimos a ponta do iceberge.

Em Iwama, a experiência foi ainda diferente das outras duas. Também ficamos como wuchideshi, mas apenas por 4 dias. E talvez não tenha sido assim tão cansativo pois não tínhamos que ficar pegando trem e metrô para irmos de um Dojo ao outro todos os dias. Entretanto, foi cansativo suficiente para acharmos que 4 dias já bastava para nós. A rotina era acordar as 5:00 da manhã para limparmos o tatami para a aula que começaria as 6:00 horas.  Os meninos dormem no tatami que tínhamos aulas e as meninas dormem em um cômodo separado fisicamente, ou seja, em outra construção. Desta forma, a limpeza do tatami era sempre realizada por eles, pois até que as meninas cheguem dos seus quartos, a limpeza já estava terminada. A aula das 6:00 é sempre com bastão e espada. Quando é mais ou menos 5 para as 6 da manhã, todos os alunos se colocam em pé no caminho que leva para o interior do Dojo. O carro do Sensei as 6 horas em ponto desponta na trilha da entrada da fazenda. Ele pára o carro, o aluno mais graduado abre a porta do carro para ele. Ele passa por nós e juntos, emitimos um sonoro e alegre“onegaishimas”, acompanhado de uma reverência.

Tivemos a oportunidade ter aula com Inagaki Sensei de espada por dois dias e foi simplesmente incrível. A habilidade dele com espada é impressionante e ficava muito visível quando ele demonstrava as técnicas com um de seus alunos, o Karl, o inglês erradicado no Japão. Os movimentos e o zanxin do Inagaki sensei na execução do exercício fazia-nos prender a respiração, principalmente quando soltava o kiai. Simplesmente incrível. Foi uma honra muito grande poder aprender pelo menos um pouquinho com ele, mesmo as técnicas sendo bem diferentes das nossas.

Em Iwama pudemos sentir que o Aikido é mesmo praticado da raiz. Bem diferente do que estamos acostumados, pois, como dizem por lá, preservam a forma como Morihei Ueshida os ensinou. Existem fotos e quadros d’O Sensei por todos os lados. O ambiente é muito limpo e com uma energia que chega a ser sagrada, como se fosse um templo budista. As aulas da noite começam as 19:00 e em ponto, todos lá estavam já sentados em seizá para para receber o sensei que ministraria a aula. A aula foi ministrada por diferentes professores durante estes dias. As aulas ministradas pelos professores de Iwama foram bem duras. Eles são muito fortes e exigiam a mesma dureza na realização das técnicas. Pegam nos pulsos de forma muito firme, fazem o Irimi nage bem forte no pescoço, mas nada era para machucar e nem provar sem mais forte que o outro, simplesmente porque é assim que é o aikido em Iwama. Mas uma coisa é certa, eles eram muito fortes e suaves ao mesmo tempo e o que as pessoas aqui demoram para aprender é que força e rigidez são coisas separadas. Força mais suavidade. Este é o grande paradigma, creio, de quase todas as artes marciais.

Como eu disse, foi tudo inesquecível e enriquecedor! Obrigada pela oportunidade Sensei Ivan!

 

 

Leave a Comment

Artigos recentes